3 de março de 2016

Entrevista - Um dedo de prosa com Rodrigo Diniz

Já escrevi, lá no comecinho deste blog, sobre o trabalho belíssimo do Rodrigo Diniz e de como fui tomada de sentimentos e reflexões diante de uma peça linda (e aparentemente simples) sua: um Santo Antoninho que mexeu fundo comigo! Na ocasião em que escrevia aquele post, eu perguntei ao Rodrigo se ele concederia uma entrevista ao Coisicas Artesanais e ele, muito gentil e simpático, atendeu de pronto! Agora, venho publicar esse dedinho de prosa bom demais da conta que tivemos e partilhar aqui um pouquinho da história desse artista delicado e encantador!

Coisicas Artesanais - Rodrigo, onde você nasceu e em qual data? Na infância, você teve contato com barro? Chegou a brincar com isso?
Rodrigo Diniz - Nasci em 10/06/1974, em Belo Horizonte, filho de ceramistas, então minha vida foi se mesclando com o barro, literalmente. Quando criança costumava sim brincar com a argila, para mim, quase inevitável.

C.A. - Nessa época, você pensava em se tornar "o quê" quando crescesse?
R.D. - Já tive várias ideologias na vida. Pensei em ser piloto de avião, jornalista, escritor, fotógrafo. A cerâmica não me inspirava a seguir essa profissão, pelo menos até o início da adolescência.

C.A. - E como se deu essa "virada" então?
R.D. -  Talvez o momento que separa o fato do barro deixar de ser uma brincadeira para mim e se tornar algo do qual eu poderia realizar alguns sonhos, foi quando meu pai me disse que para comprar uma sonhada máquina de fotografia (aquelas com filme, que viraram nostalgia) eu teria que trabalhar. No mesmo dia comecei a criar minhas primeiras peças, coisas simples, decoração para quartos infantis, que na época faziam sucesso... foram minhas primeiras peças.

C.A. - E quando se deu conta de que a cerâmica era o teu caminho?
R.D. - Bem, até esse episódio, eu não tinha nenhuma pretensão em trabalhar como meus pais, ou seja, ser um ceramista. Comprei minha máquina e o sonho de ser fotógrafo falava alto. Mas até isso ajudou a tomar gosto pela criação em argila. Fotografando pássaros, fui aos poucos fixando a ideia de passá-los do papel para o barro e logo descobri o prazer que tinha manusear a argila e, de um pedaço de barro, dar formato de algo... Não foi coisa do dia para a noite, mas aos poucos estava se entrelaçando à minha alma!

C.A. - Sim... Até porque você já trazia esse contato forte com a cerâmica desde a infância, né? A "sementinha" já estava dentro de você...
R.D. - É... o processo foi natural, afinal, cresci vendo meus pais trabalhando com o barro, e através deles, aos poucos, essa arte foi me conquistando.

C.A. - Você diz que, quando novinho, a cerâmica não te inspirava a seguir essa profissão. Você consegue identificar a razão? Por que a cerâmica não te atraía?
R.D. - Bem, isso quando era bem criança e tinha outros sonhos, época boa... Acho que por influência de outras crianças que sempre comentavam as profissões que queriam seguir... Não que necessariamente não houvesse interesse na cerâmica, mas como era algo comum na minha vida e havia uma certa curiosidade em outras profissões...

C.A. - Sim, claro. Principalmente quando se é criança, que tudo o que é "novo" aos nossos olhos nos atrai mais, né? Ok... E como foi no começo?
R.D. - Quando me formei no colegial, para prosseguir nos estudos, eu teria que trabalhar. Então, nesse momento, posso definir o começo dessa trilha. E não foi fácil. No início passei a ajudar meus pais, mas gradativamente fui desenvolvendo minhas próprias criações. Fazer esculturas sacras foi um grande desafio no início, mas com muita persistência fui vencendo os obstáculos - que não se limitaram somente na parte técnica da criação. 

C.A. - O que te moveu a passar a criar peças sacras? Você consegue identificar o que te influenciou na escolha desse tema? 
R.D. - Isso foi acontecendo naturalmente, à medida que as pessoas iam conhecendo e aprovando o trabalho foi ficando mais forte a dedicação nesse ramo. Mas hoje, confesso que tenho outros desejos de criação além da arte sacra.

C.A. - Como o quê, por exemplo?
R.D. - De vez em quando tenho vontade de fazer alguma escultura popular ou peças do cotidiano! Meu pai fazia esse tipo de artesanato e então dá uma saudade! Eram esculturas de cavalos, carros-de-boi, pescadores, casinhas do interior e igrejas! Esse tipo de artesanato bem variado... Fico pensando em como ele conseguia fazer tanta coisa, até parece que os dias eram maiores.

C.A. - E deviam ser! rs... Nos dias de hoje tudo é tão corrido! E isso muda a nossa relação com o Tempo... Bem, Rodrigo, você comentou também de alguns obstáculos no começo, afora os desafios técnicos. Que obstáculos eram esses?
R.D. - Talvez o maior desafio fosse vencer o "sistema". Tudo era difícil: local para expor as peças, reconhecimento do trabalho, conseguir criar uma identificação... Na verdade, acho que até hoje, 20 anos já passados, ainda busco esses detalhes...

C.A. - "Criar uma identificação"... Acho que isso é uma busca incessante de todos os grandes e verdadeiros artistas. Esses "detalhes" que tornam única uma criação e que se transformam na sua "assinatura"... Mas, Rodrigo, hoje, examinando a tua trajetória, 20 anos passados desde o começo, você se sente feliz com o caminho que acabou tomando? 
R.D. - Com o caminho, sim. Com o resultado talvez nem tanto. Vou explicar. Quando estou fazendo uma imagem, aquele momento é sublime, de total dedicação, nada se compara, aqui está minha satisfação... Mas tenho a sensação de que não consegui ainda meu real objetivo... não sei explicar exatamente o quê, mas talvez a maneira como minhas peças chegam ao público final não tem sido a mais correta... faltou um contato mais próximo com o cliente. Pretendo aos poucos ir mudando esse conceito, como de fato tenho procurado fazer, mas não é fácil...

 C.A. - "♫...Todo artista tem de ir aonde o povo está..." É uma busca diária, né, Rodrigo? Acho que é a busca da vida do artista: querer encontrar seu público, aqueles que valorizam e percebem a beleza do que tem para mostrar... E é muito bacana ver que você continua buscando, seja se preocupando em aperfeiçoar a tua técnica, seja criando meios de se aproximar do teu público... Acho que isso fala muito do artista que você é! ... Agora, pra podermos fechar essa entrevista, Rodrigo: considerando tudo o que você passou pelo caminho e  o que ainda considera que precisa conquistar, qual lição guarda contigo?
R.D. - O mais importante que aprendi foi que lutar pelo ideal é o que realmente importa. Aprendi a amar essa profissão, herdada de meus pais, que hoje não troco por outra...

Coisicas Artesanais - entrevista com Rodrigo Diniz
Rodrigo e algumas de suas criações no seu ateliê - Foto gentilmente cedida por Rodrigo Diniz

Muitíssimo grata, Rodrigo, por essa gentileza de vir aqui prosear no Coisicas Artesanais e nos contar um pouquinho da tua história com a argila, e de como a vida foi te levando a abraçar enquanto profissão essa arte que herdou de teus pais! Me sinto agradecida e feliz por esse dedinho de prosa bom demais da conta

Que o teu trabalho continue sendo sempre abençoado por belíssimas e ternas inspirações! Que teu público possa estar mais pertinho de você, curtindo e valorizando o teu trabalho, e que teus dias possam parecer um cadico mais longos (rs) pra você poder colocar em prática esse desejo de criar outras peças, em conexão com as lembranças das criações de teu pai! Muitas e lindas realizações no teu caminho, Rodrigo!

Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do Rodrigo Diniz, pode passar na lojinha dele, aqui!


E se você ainda não leu o post que fiz sobre o quanto o trabalho do Rodrigo mexeu com o meu coração, então dá uma olhadinha aqui,
 ó!

Em breve o Rodrigo vai criar mais um canal para divulgar sua obra e abrir um contato mais próximo com o seu público e, quando isso ocorrer, nós vamos divulgar aqui no Coisicas Artesanais!  
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